A extrema dificuldade em aceitar o próximo

Coisas que as pessoas não escolhem:
– Orientação sexual
– Identidade de gênero
– Aparência
– Deficiência
– Doenças Mentais
– Raça

Coisas que as pessoas escolhem:
– Ser um idiota com as outras pessoas sobre as coisas que elas não podem controlar

Quando eu era adolescente certa vez estava na casa de uma amiga quando ela revelou para a mãe que estava namorando um rapaz negro, e a reação da mãe, sem pestanejar, nem pensar duas vezes o que iria dizer na minha frente, foi de dizer “minha filha, coitados dos seus filhos”, na hora fiquei calada, chocada, pensativa … pensei em mim, nos meus irmãos, primos e todos os negros que conheço, não nos considerava coitados e não entendi aquele pré conceito do que seriam os filhos, os coitados.

Hoje, com quase 40 anos de idade, me pego refletindo essa frase e vejo com outros olhos o que ela disse naquele momento, vejo que talvez as palavras na forma que foram colocadas ofenderam mais a mim do que aquela mãe podia imaginar. Jamais havia sido desrespeitada ou mal tratada naquele ambiente. Penso que se durante sua vida, ela teve a chance de conviver com negros, não como seus empregados, mas como amigos, parentes, relacionamentos afetivos, se (e dou ênfase ao se), ela teve esses tipos de relacionamentos, ela teve uma real visão de como é o dia a dia de um negro, os preconceitos que sofrem diariamente e talvez naquele dia, aquela mulher que sempre me tratou bem, se referiu aos possíveis futuros netos como coitados não querendo que sofressem preconceito.

Visão distorcida, mas hoje consigo ver sobre esse prisma, o que até então me parecia apenas um preconceito de cor, cabelo, traços, feições.

coitado
co.i.ta.do
adj (part do port ant coitar, do lat coctare) Desgraçado, infeliz, mísero.
sm Indivíduo desgraçado, infeliz, mísero.
interj Exclamação que exprime dó.

Talvez quem leia não consiga entender o que eu esteja tentando dizer, mas nos últimos meses, minha visão em relação a extrema dificuldade que as pessoas tem em aceitar o próximo, principalmente quando ele é diferente, se fez mais presente em minha vida e me chocou. O preconceito e o racismo contra o negro já estou acostumada, estou preparada quando ele chega, aprendi a lidar, conviver e me impor. Mas não estava preparada para o preconceito contra pessoas queridas com orientação sexual diferente da maioria das pessoas com quem convivo. Não estava preparada para a quantidade de preconceito e a forma como as pessoas lidam coma vida e opções do outro.

Me chocou a falta de tato nas relações de amizade, o quão comum é para as pessoas se referirem a quem não conhecem de forma pejorativa, como as pessoas se acham no direito de “brincar” com o outro que não deu a mínima intimidade, nem liberdade, referindo-se a sua opção sexual.

Entendi, de certa forma, as mães que dizem que não querem filho gay por medo do que o filho ou a filha possa vir a passar. Jamais entenderei aquelas que rejeitam ou se envergonham da opção sexual de seus filhos, assim como também não entendo as pessoas que tem homossexuais nos seus círculos familiares e/ou de amizade e que mesmo assim se referem a pessoa fazendo graça, menosprezando, “brincando”.

Todos queremos e devemos ser respeitados, independente de orientação sexual, identidade de gênero, aparência, deficiência, doenças, raça … Temos o dever de respeitar a todos, devemos sempre tratar o próximo assim como gostaríamos de sermos tratados. O que as pessoas precisam aprender é que os negros, os gays, os deficientes, não são coitados, os coitados e infelizes são aqueles que ofendem, aqueles que se calam, aqueles que omitem e aqueles que são coniventes com essas situações.

Não precisamos ser politicamente corretos, precisamos sim aprender a respeitar o próximo, a medir as palavras, a se colocar no lugar do outro, o dia que conseguirmos viver dessa maneira, o mundo será muito melhor. Respeito, simples assim, é só isso que falta e muitos de nós nem percebemos.

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